Virgínia Leal
Contista e poeta

 

Virgínia Leal

 

Virgínia Leal Crisóstomo é recifense de nascimento e olindense de coração. Filha de escritor e de historiadora e mãe de um casal de filhos, por trinta anos foi advogada da Caixa Econômica Federal em Pernambuco, e atualmente presta consultoria jurídica. Iniciou seu percurso literário em 2003, com o livro “O Caleidoscópio da Vida”. Em 2005 editou “Para quem não tem colírio – Desnudando o comportamento compulsivo”, e “Fênix”. Participou de algumas antologias, entre elas “Pimenta Rosa” e “O Fim da Velhice – A superação bem humorada de um conceito” e “Antologia das Águas”. No prelo, “Contadora de Estrelas”. É pós-graduanda em Literatura Brasileira na FAFIRE, sócia da União Brasileira de Escritores e integrante do Grupo Literário Celina de Holanda.

vbleal@terra.com.br


Abalizada Opinião

Não sei você, mas nunca consigo dizer como quero o corte. Fiquei aliviado quando achei um cabeleireiro que entedia os caprichos de minhas mechas. Para meu desgosto, ele saiu do salão e não deixou endereço. Sem pensar muito, aceitei o convite do substituto. Observei aflito o ritual de tosa, sem entender o resultado. Saí inseguro, doido por chegar em casa e examinar melhor o novo visual. Ao meu encontro vinha um “cheira cola”, com olhar atento a meu topete. Parou à minha frente, segurando a garrafa junto ao nariz e a outra mão no quadril e deu sua abalizada opinião: que cabelo horrível ... Não importa que não esteja mais na moda, pelo amor de Deus, passe a máquina zero!


O Ópio do Mundo Globalizado

Compaixão é a capacidade de solidarizarmo-nos com a falha humana, por não estarmos imunes a ela.

A busca de prazer, na tentativa desesperada de entorpecer a dor, confundiu efeito com causa, meio com fim, caminho com destino. Sucesso profissional tem por meta prestígio e poder econômico. Aceitação social é ditada pela indumentária ou modelo de carro da moda. A mídia cria necessidades falsas, prazeres destrutivos, modelos de convivência distorcidos.

Na massificação de estímulos, foi esquecida a fonte de real contentamento. Alienado do propósito de vida, o homem distancia-se da felicidade e cai nas armadilhas do sistema econômico de consumo, que estimula o comportamento compulsivo. Exército de viciados: em trabalho, ginástica, vídeo game, sexo, jogo, em controlar pessoas, em relacionamentos; em drogas, barbitúricos, álcool, cigarro; crescente o número de consumidores, de todos os níveis sociais, que estouram o limite de cartões de crédito; proliferam grupos anônimos de auto-ajuda: dos alcoólicos, neuróticos, narcóticos, comilões. Estes últimos vitimados por diabetes, obesidade, anorexia – incapacidade de gerir alimentos e bulimia – incapacidade de manter alimentos no estômago. Especialistas dedicam-se em pesquisar a causa desses males:

- autoritarismo ou permissividade dos pais, na infância;
- abuso físico, psicológico ou sexual;
- predisposição genética;
- dificuldade em encaixar-se no modelo social;
- violência urbana;
- ausência de expectativas de vida;
- baixa auto-estima
- ansiedade, sentimentos reprimidos;

Por trás da aceitação das drogas consideradas legais – bebida e cigarro – está o interesse econômico, por serem fontes lucrativas de renda e deixarem uma grande fatia para o fisco; a reprovação do consumo das chamadas drogas proscritas é decorrente da incapacitação para o trabalho e da motivação para a criminalidade daqueles que não têm meios de obtê-la. Em menor ou maior escala, a maioria de nós é ou já foi vítima dessa epidemia. Não nos cabe, portanto, julgar aqueles cujo comportamento compulsivo levou ao consumo de drogas.

É preciso resistir ao desejo de escapar da realidade e amortecer a dor. O propósito do ser humano é ser feliz. E isso só é possível se ele for capaz de enfrentar o sofrimento, conscientes da necessidade do trabalho libertador de aceitação, tolerância e indulgência de si e do outro.


Par a Par

O equilíbrio entre dois
na gangorra
é não ficar do mesmo lado

Não haveria diversão
não fosse o impulso sincronizado
às vezes desajeitado
a mover a gangorra

Sem a alternância
um estaria isolado no topo
e o outro preso no chão

E não desfrutariam do prazer
de estar par a par na gangorra
a eixo de cada oscilação

 

Salgueiro

No recomeço de tudo
o sopro da vida pulsa
no escuro útero

É a regressão do ser
a vestir-se de grão

O broto em mutação
cava a passagem de ida
ao desconhecido instante
de orvalho e de sol
de vento e de lua

Fiel ao fio que o ancora
oferta à generosa chã
altaneira fronde
de flores e frutos

À tormenta e sua ceifa
inclina-se em reverência
e doa-lhe imoladas folhas
adubo de gérmen latente

Cada nó, cada gume
urde a preciosa trama
que forma a antiga morada
de todas as eras

O sopro da vida pulsa
e tudo é recomeço
neste jeito humano de ser

 

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