Academia Pernambucana de Letras

 


 

M e n s a g e m   d e  N a t a l

Waldenio Porto*

Em dezembro as acácias da minha rua se vestem de amarelo-ouro. Misturam-se com a luminosidade intensa do dia. O vento passa seus longos dedos nos cachos louros, encaracolados, pendentes. Que balançam, pendulares. Há música e ritmo no ar. Sensualidade feminina em movimentos de abandono, na quentura do sol de verão. Pinceladas fortes de luz criam a irrealidade de um mundo evanescente. Que perde os limites e esmaece os contornos.

Caminho pela Praça Chora-Menino e já nem sei se o dourado é das acácias ou de recordações encharcadas de luz. Na orgia de refrações entreteço luminosos vagares distantes, todos dentro de mim.

Chegam-me os “dedais-de-ouro”, formando guirlandas nos gradis das casas de minha infância. Acode-me o cheiro intenso dos abacaxis, cortados em fatias amarelo-festa, expostas ao sol.

De amarelo ainda os cajus em balaios recendentes, o laço de fita da menina, as bolas reluzentes dos enfeites e o velho carteiro de boné, passo diligente, todo ele mensagens de Feliz Natal.

Luzes, muitas luzes, de gambiarras, de velas alumiando presépios, candeeiros de carbureto em barracas de bolos e alfenins. Os doces da minha infância também fazem festa dentro de mim. Visto a roupa sempre nova da alegria da juventude, guardada ainda com o brilho e beleza de quando chegou. Feita sob a medida dos meus sonhos, pespontada de risos e expectativas felizes. Volto ao aconchego e à segurança daqueles dias. Uma reconfortante sensação de fraternidade me envolve. Os laços de família cativam como o laço de fita da menina que inda agora vi. Ninguém se foi nem me deixou, pois, se estão todos aqui! Gozo a plenitude deste momento intemporal. Adejam em mim emoções antigas em vôo suave e pouso calmo.

E assim, meu caro amigo, te convido a partilhar e repartir este instante. Vem. Vamos descobrir, em meio às quinquilharias que atulham e enchem de ansiedade a nossa vida, a paz perdida e o afeto gasto. Acende as candeias da tua alma e aviva a lamparina do coração. Olha com ternura tua mulher e enxerga a beleza que não se foi. Repara bem e desvenda o que só a ti é dado ver. Pousa a meiguice no olhar e descansa a vista na contemplação carinhosa dos teus filhos, passado, presente e futuro de ti mesmo.

Neste Natal, meu caro amigo, repassemos juntos as recordações todas para que apareça o mel rico da mocidade. Sentemos juntos nesta ceia, sirvamo-nos do prazer de ter amigos e bebamos o vinho da fraternidade. Ainda é tempo de sentir a vida, pois, em dezembro as acácias da minha vida e da tua se vestem de amarelo-ouro.

(*)Waldenio Porto é Presidente da Academia Pernambucana de Letras